quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Na Natureza Selvagem?

......Estava ontem no ponto de ônibus, tarde da noite, quando um mendigo se aproximou. Cambaleava, fedia muito e olhava atentamente para o chão, provavelmente procurando alguma coisa de valor.
.......Achou um cigarro pela metade. Cheirou o cigarro, o rolou pelos dedos, pareceu ponderar por um momento, guardando-o, por fim, no bolso.
.......Fiquei apreensiva quando ele veio caminhando em minha direção, e respirei fundo quando ele parou um pouco adiante. Então, comecei a analisar aquela figura, observar seus gestos, suas roupas. Tenho mania de ficar olhando para as pessoas que me parecem interessantes de alguma forma (para bem ou para mal), e esse olhar talvez seja demasiado fixo. Algumas pessoas, notando meu interesse, ficam visivelmente perturbadas, olhando para mim e desviando o olhar, repetidamente. Esse mendigo, no entanto, me olhou de volta, olho no olho, e sustentou esse olhar sem medo. Lembrei-me do que Demian disse para Sinclar, no livro que leva seu nome: são poucas as pessoas capazes de sustentar um olhar.
.......Então, me veio à cabeça a imagem cinematográfica de Chris MCandless. Meus pensamentos substituíam-se uns aos outros com uma velocidade alarmante, e, quando frearam bruscamente, havia essa idéia rolando lá dentro da minha cabeça: que aquele mendigo não era uma pessoa comum.
.......Seria um homem revoltado, como o Chris, vivendo à margem da nossa sociedade corruptora em forma de protesto?
.......Nesse momento, o mendigo fez sinal para o ônibus que se aproximava. Entrou nele e partiu.
.......Enquanto eu observava o ônibus sumir na curva, uma mulher me interpelou. Como eu não tivesse prestado atenção ao que ela falara, fiz aquela expressão educamente intrigada que é bastante usual entre pessoas estranhas.
.......E ela disse num só fôlego:
......."Coitado desse rapaz. Eu o conheço desde pequeno, sabe? Ele estudou no Colégio Abel, depois fez faculdade de música... E na Unirio ainda por cima! Era um rapaz muito inteligente. Hoje eu finjo que nem conheço. Porque, afinal de contas, vou falar o que pra ele? Chegar e perguntar se tá tudo bem? Só queria saber o que foi que aconteceu pra ele ficar vagando por aí assim... mendigando desse jeito..."
.......Meu ônibus chegou e eu fui embora, mas não fiquei bem. Não estou bem.
.......Na natureza-de-pedra selvagem...

sábado, 8 de agosto de 2009

"Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!"

(Alberto Caeiro)

sábado, 1 de agosto de 2009

Compreensões

Chega um momento em que eu só não me basto.
Preciso transbordar alguma coisa, derramar sobre alguém e, ao mesmo tempo, me preencher de tudo o que me falta.
A gente se derretendo sob a chuva.
A gente provando que dois corpos podem, sim, ocupar um só lugar no espaço.
A gente aprendendo anatomia.
A gente contando casos e histórias que ninguém mais daria a menor atenção.
E a gente vidrado, sorvendo cada palavra do outro como se fosse uma espécie de revelação.
Confesso. Ai, como eu confesso.