Acordo assustada. É madrugada morna, entrando prateada pelas grades da janela.
A menina me toma pelas mãos. Caminhamos juntas. Assustadas, verdadeiramente apavoradas, mas acima de tudo curiosas. Caminhamos juntas.
Caminhamos como se pudéssemos flutuar sobre as calçadas degradadas, rumo a terras melhores. E podemos. Então, há uma mulher e um jarro de água fria, e pés alvos, e ombros nus, escapando à blusa rendada. Há meninos correndo à beira do rio, sem pressa nenhuma de destino.
A vida é simples. A vida é fácil. Caminhamos juntas.
Há casinhas, há fumaça saindo pelas chaminés. Cheiro de comida preparada com carinho, e ruídos de talheres em grandes mesas de madeira, para oito pessoas. Há o trote de cavalos treinados. Há pintinhos bicando a grama, o caule da árvore tombada, o milho sobre o chão de terra.
A vida é calma. A vida é tranqüila. Caminhamos juntas.
Há um monge e um rochedo prolongando-se sobre o mar, desafiando a gravidade. Há um templo, e tudo é silêncio. Há discípulos, pés sobre coxas, costas eretas, cabeças raspadas. Juntamo-nos a eles. Fecho os olhos. Existe um mundo dentro de mim.
A vida é plena. Caminhamos juntas.
Há heróis sob as árvores, expressões brandas e punhos firmes. São ágeis, são muito ágeis. Há sempre um objetivo maior na vida de um herói. Há sempre um mundo por salvar, um novo movimento a aprender, um caminho bem marcado para seguir. Um herói nunca passa por estas terras em vão.
A vida é louca. Caminhamos juntas.
Retornamos às grades de minha janela. Gostaria que a menina me soltasse em qualquer outro lugar, e assim lhe peço, timidamente. Mas ela ri, e ri tão alto que preciso abrir os olhos. Sinto raiva da menina. Sinto muita raiva da menina.
Acordo assustada. É manhã de verão, entrando laranja pelas grades da janela.
Meu mundo é uma prisão.
Belo texto, érika ^^ ...
ResponderExcluirGosto desse ritmo frenetico de frases curtas pontuadas. Dá uma dinamica bem interessante, ainda mais para textos com temas como esse ...
É fácil se sentir numa prissão na própria vida, não é só vc que se sente assim ... por mais que tenha alguem ao seu lado lhe dando a mão, ainda é possivel se sentir só ... dentro de vc mesma (no seu mundo interior) ...
Beijões!
Thiago Lucas
Tive duas interpretações sobre o seu texto. Talvez elas sejam conflitantes, talvez não.
ResponderExcluirNa primeira você é a menina, e a narradora é a sua alma. Apesar de a descrição ser de um mundo "pleno", ele não é da narradora. O mundo da narradora é a prisão do corpo.
Na segunda você e a narradora são um só, e a menina é um personagem independente. Seu sonho é estar com essa menina, é com isto que sonha, mas acorda e volta para a prisão da vida real.
Delirei demais?
A culpa é sua!
Bejo
Vituchô